No Dia Internacional da Mulher, o Projeto de História Oral (OHP) do Instituto de Estudos Ismailis (IIS) reflete sobre a resiliência continuada das mulheres cujas vidas sustentaram famílias, nutriram comunidades e preservaram a fé ao longo de gerações. As suas histórias revelam como os lares são construídos não apenas através da estabilidade, mas também através da perseverança em tempos de incerteza; como o cuidado, o trabalho e a coragem moral moldam silenciosamente os mundos sociais; e como os atos diários de resistência das mulheres se tornam os alicerces sobre os quais as comunidades sobrevivem e se renovam.
É dentro desta história mais ampla de força, luta e continuidade que se situa a história de vida de Naseem Mohammed Bhaloo, oferecendo uma visão profundamente pessoal das experiências vividas através das quais essa resiliência toma forma.
Em 20 de outubro de 2024, na sua casa em Zanzibar, Naseem Mohammed Bhaloo sentou-se para gravar a história da sua vida para o Projeto de História Oral do IIS. A entrevista foi conduzida por Karim Ratansi, um octogenário ex-aluno do Programa de Formação de Waezeen e Professores do Instituto, ex-líder comunitário e voluntário ao longo dr toda a vida que serviu as instituições da comunidade ismaili na Tanzânia. Conduzida em kutchi — originalmente uma língua oral indo-ariana falada em Kutch (Katchchh), Gujarat, e entre comunidades da diáspora —, a conversa reflete o espírito intergeracional da iniciativa de história oral. Mais do que uma biografia individual, a entrevista preserva a experiência vivida por uma geração de mulheres ismailis que navegaram por turbulências políticas, desapropriação, migração, fé e empreendedorismo com notável compostura.
Nascida em 3 de julho de 1952 na Maternidade Aga KhanUm título concedido pelo Xá da Pérsia ao então Imam Ismaili em 1818 e herdado por cada um dos seus sucessores ao Imamat. em Mkunazini, em Zanzibar, Naseem cresceu em Shangani, numa família numerosa com dez irmãos. O pai, originário de Beraja, em Kutch, tinha alcançado uma prosperidade modesta através do comércio, antes das convulsões políticas da década de 1960. No entanto, o conforto da infância logo daria lugar à incerteza.
Mudança Política, Refúgio e Jamatkhana
As mudanças políticas em Zanzibar no início da década de 1960 marcaram uma ruptura decisiva. Naseem lembra-se da comunidade a refugiar-se no Jamatkhana Ismaili, que se tornou num refúgio e num lugar de sobrevivência. Com privacidade limitada, saneamento escasso e medo no ar, as famílias dormiam no chão e dependiam de rações partilhadas. Um comerciante local abriu as suas reservas de alimentos para que os IsmailisAdeptos de um ramo do Islão Shi'i que considera Ismail, o filho mais velho do Imam Shi'i Jaʿfar al-Ṣādiq (m. 765), como seu sucessor. pudessem comer durante o confinamento.
Tudo nos foi tirado... Recebemos um quilo de arroz, um quilo de farinha e um quilo de açúcar para toda a família durante uma semana, sem batatas, sem pão, sem sabão.
As memórias de Naseem documentam cuidadosamente como a prática religiosa continuou mesmo sob tais restrições. As orações congregacionais foram mantidas, embora com recursos mínimos e sem festas cerimoniais. O Jamatkhana funcionava não apenas como um local de culto, mas como uma instituição social de resistência. Para mulheres e meninas em particular, era também um local de proteção. O pai de Naseem insistia que as suas filhas solteiras aí permanecessem por uma questão de segurança.
Educação nterrompida, Responsabilidade Assumida
A educação de Naseem nas escolas Aga Khan foi interrompida no terceiro ano do ensino secundário. Quando as finanças da família entraram em colapso, o pai retirou-a da escola para que ela pudesse ganhar um rendimento. Com apenas quinze anos, começou a lecionar na Escola Infantil Aga Khan em 1967. O que começou por ser uma necessidade económica tornou-se uma vocação.
Eu estava com muito medo... se não me saísse bem, teria de voltar para a escola... Então, continuei a tentar e a tentar.
Ela lecionou durante onze anos no ensino infantil e, posteriormente, durante catorze anos numa escola pública, adaptando-se a novos currículos e idiomas. Durante uma inspeção escolar, sem qualificação formal como professora, ela impressionou os inspetores com a sua preparação e honestidade. Eles disseram que o meu trabalho era muito bom, que tudo estava perfeito. O seu testemunho revela como as trajetórias educacionais das mulheres eram frequentemente moldadas por crises familiares, mas também como essas mesmas restrições forjaram competência, resiliência e autoridade.
Da Sala de Aula à Actividade Profissional
Em meados da década de 1980, com o incentivo dos líderes comunitários, a família entrou no ramo de artigos de papelaria. Quando a supervisão se tornou essencial, Naseem deixou o ensino e acabou por se demitir após décadas de serviço.
Então, comecei a minha vida como lojista.
A sua rotina diária combinava cuidar dos filhos, cozinhar, dar apoio ao ensino, gerir o negócio e frequentar o Jamatkhana à noite, indo muitas vezes a pé com os filhos. Mais tarde, a loja evoluiu para uma empresa familiar e os filhos expandiram os negócios para a área da impressão e do turismo. Os lucros destes empreendimentos ajudavam viúvas, órfãos e estudantes necessitados, refletindo uma ética de generosidade recíproca incorporada na vida comunitária.
Cuidado, Perda e Perseverança
Um dos temas mais comoventes na história de vida de Naseem é a repetida proximidade com a morte. Ela relata como abraçou a sua avó quando ela faleceu, cuidou do pai nos seus últimos momentos, velou a irmã e, mais recentemente, perdeu o seu marido em junho de 2025.
Ainda não consigo entender como consegui fazer tudo isso.
Esses momentos são narrados sem melodrama. Eles refletem uma aceitação baseada na fé. Mesmo depois de voltar exausta do HajjA palavra Hajj geralmente refere-se à peregrinação anual dos Muçulmanos à Kaʿba, em Meca, também chamada de Grande Peregrinação, em contraste com a ʿUmra, a Pequena Peregrinação. Mais, realizado pouco depois de uma cirurgia ao joelho, nessa mesma noite esteve no Jamatkhana para a comemoração do 'Id al-Ghadir.
Olhando para o Futuro
Naseem expressa preocupação com o futuro da pequena comunidade ismaili de Zanzibar, que agora conta com menos de 100 membros. Preocupa-se com a continuidade religiosa no meio das mudanças das condições sociais, e as suas reflexões lembram-nos que a resiliência não apaga a incerteza; ela coexiste com ela.
No entanto, a sua vida é um testemunho da liderança muitas vezes não registada das mulheres na sustentação da família, da fé e da economia. Das filas para receber rações em tempos de turbulência política à direção de conselhos de administração, de professora adolescente a empreendedora matriarcal, a sua trajetória exemplifica uma autoridade discreta moldada pelo serviço.
No Dia Internacional da Mulher, a sua história convida-nos a reconsiderar o que é o triunfo. Ele não se encontra apenas no reconhecimento público, mas também na presença constante, na carteira da escola, atrás do balcão da loja, ao lado de uma cama de hospital e num passeio noturno até ao Jamatkhana.
Através do Projeto de História Oral do IIS, vidas como a de Naseem Mohammed Bhaloo são preservadas, passando da memória viva para os registos arquivísticos, de modo a garantir que a resiliência e as contribuições de mulheres ismailis como ela sobrevivem na consciência histórica coletiva da comunidade.